Campo Grande receberá a conferência sobre animais silvestres migratórios
Edição AgroDF
9 março 2026
Campo Grande (MS), a “Capital do Pantanal”, foi confirmada como a cidade brasileira que sediará a 15ª Conferência sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), que acontecerá entre 23 e 29 de março. A confirmação aconteceu na semana passada, quando o Congresso Nacional aprovou o decreto legislativo que ratifica o acordo sobre a 15ª Reunião da Conferência das Partes que trata da COP15. O acordo foi assinado entre o Governo do Brasil e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), em Nairóbi (Quênia), em 21 de dezembro de 2025. Após a decisão do Congresso, foi promulgado e publicado o Decreto Legislativo nº12/2026, que transforma em norma jurídica o acordo sobre a COP15.
Em vigor desde 1979, a Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS) é um tratado ambiental das Nações Unidas que promove a conservação de espécies migratórias, seus habitats e rotas em escala global. A cúpula reúne diversos atores para proteger a fauna migratória em nível mundial. Conta com 133 partes signatárias (132 países e mais a União Europeia) e abrange cerca de 1.189 espécies, entre aves, mamíferos, peixes, répteis e insetos.
Custo do evento
O acordo aprovado prevê o orçamento para realizar o evento, que custará R$ 46,9 milhões, a serem subsidiados pelo Governo do Brasil (R$ 26,7 milhões), em conjunto com o governo do estado do Mato Grosso do Sul (R$ 10,7 milhões), projetos de cooperação internacional (R$ 2,5 milhões), a exemplo do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), bem como outros patrocinadores.
No escopo desse valor estão previstos ainda cerca de R$ 3 milhões para a equipe da CMS, responsável pela COP. A presidência da conferência está sob responsabilidade do secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco.
Ao justificar a realização da COP15 em Campo Grande, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, destacou que o evento “será um momento decisivo para ampliar a proteção das espécies migratórias, fortalecer alianças entre países e reafirmar o papel do Brasil como liderança na agenda ambiental e climática, com diálogo, responsabilidade e compromisso com o futuro do planeta”.
A escolha de realizar o evento no Pantanal também chama atenção para a importância do bioma, que possui notável biodiversidade e é uma das maiores áreas úmidas contínuas do planeta.
Tramitação no Legislativo
No Senado Federal, o relator do projeto foi o senador Nelsinho Trad (PSD-MS), que pontuou a importância do evento para Campo Grande. “O evento atrai a cooperação e o intercâmbio de entidades nacionais e internacionais especializadas em questões ambientais, reforçando a economia da cidade sede”, disse.
Já na Câmara dos Deputados, o deputado Nilto Tatto (PT-SP) relatou a proposta. “Espécies migratórias, por definição, dependem de múltiplos ecossistemas e da coordenação entre Estados para que seus ciclos de vida sejam preservados, o que torna a conferência um dos instrumentos mais emblemáticos da governança ambiental global”, defendeu em plenária.
Espécie migratórias
Os animais que migram são extremamente importantes para a sobrevivência dos ecossistemas, do ciclo dos nutrientes e da fauna. As jornadas feitas pelas aves, mamíferos, peixes e até insetos conectam diferentes partes do mundo natural. Essas jornadas mostram a “sincronicidade”, ou seja, como os ciclos naturais, como as estações do ano, estão interligados e funcionam em harmonia.
A migração também é importante porque ajuda os animais a se adaptarem a ambientes em mudança, a encontrar os recursos necessários para sobreviver (como comida e água) e a colonizar novos habitats, o que garante a sobrevivência e a reprodução das espécies. Além de ser fundamental em processos como a fertilização do solo (que é importante para o crescimento das plantas) e no suporte a cadeias alimentares complexas, nas quais diferentes espécies dependem umas das outras para sobreviver.
Eis algumas das espécies migratórias.

Andorinha: É conhecida por sua migração anual, sendo na verdade um dos primeiros sinais de que uma nova estação está chegando. Elas migram para o hemisfério norte durante a primavera e o verão, onde há muitos insetos para comer e podem cuidar de suas crias. Durante o outono, migram para o hemisfério sul, fazendo com que se estabeleçam em um clima moderado com comida abundante.
Ganso selvagem: A segunda variedade de ave migratória é o ganso selvagem, conhecido por seu icônico voo em forma de “V”. A formação, além de um espetáculo visual, ajuda a conservar energia. Devido ao fato de que se deslocam nessa formação, os gansos são literalmente levados nos redemoinhos criados pelas asas de seus companheiros, e o uso de energia ao se deslocar para longas distâncias é melhor aproveitado, já que não precisa de 100% de desempenho no voo.
Cegonha: É uma das aves migratórias mais conhecidas. Até mesmo lendas e folclores foram muito registrados em todas as culturas do mundo. Sua rota da Europa para a África é a mais longa. A cegonha branca, entretanto, fica na Europa durante o verão, onde ela e seus filhotes constroem ninhos. Quando o inverno se aproxima, ela viaja para a África subsaariana, onde o clima ainda é pelo menos suportável e a comida está em abundância.
Baleia Jubarte: É o animal com uma das maiores rotas de migração – notáveis mais de 8.000 km. A migração é conduzida entre as áreas de alimentação em águas frias polares e as áreas de reprodução em águas tropicais e subtropicais. Elas se alimentam das águas ricas do Ártico ou da Antártica durante o verão, acumulando uma camada de gordura que lhes permite sobreviver durante a estação de acasalamento, quando, na verdade, não comem nada. No inverno, elas nadam até as águas mais quentes para acasalar e dar à luz. Nas águas tropicais, a temperatura amena e a ausência de predadores criam um ambiente relativamente seguro para o pequeno filhote recém-nascido.
Gnu: O gnu é uma das espécies mais conhecidas pela migração em massa, sendo o proprietário de uma das maiores e mais dramáticas migrações de terras do mundo. Todo ano, cerca de 1,5 milhão de gnus, juntamente com zebras e gazelas, viajam do Serengeti, na Tanzânia, para o Maasai Mara, no Quênia, em um percurso de cerca de 2.000 km em busca de pastos verdes e água.
Coiote: Esse animal é muito mais adaptativo e oportunista do que outras grandes espécies migratórias. Enquanto não é conhecido por migrar ao longo de rotas sazonais específicas como outras espécies de mamíferos, o coiote é muito significativo em seu potencial para se mover para novos terrenos e utilizar novas oportunidades ecológicas. Originalmente nativo das pradarias e desertos da América do Norte, o coiote se estabelece com sucesso em quase qualquer tipo de habitat, de terras rurais a subúrbios.
Sardinha: É um peixe que migra em grandes números, formando cardumes que podem ser vistos de longe. Uma das migrações mais espetaculares ocorre anualmente ao longo da costa leste da África do Sul e é chamada de “corrida das sardinhas”. Neste fenômeno, bilhões de sardinhas migraram das águas frias da península do Cabo para as águas quentes da Costa Leste – uma jornada de aproximadamente 1.000 km.
Salmão: É conhecido por suas viagens de volta ao local de nascimento para desova. Nascido em rios de água doce, o salmão se muda para o oceano, onde passa a maior parte de sua vida, crescendo e se alimentando. Durante a estação de reprodução, o salmão volta ao seu rio natal de longe, nadando contra a correnteza através de obstáculos como quedas d’água e corredeiras.
Truta: Algumas espécies de trutas são anádromas, ou seja, elas viajam da água salgada do oceano ou de grandes lagos para a água doce de uma pequena barragem, onde a desova ocorre em um local preferido para o desenvolvimento dos ovos. A maioria das trutas, por outro lado, é também migratória em um rio, movendo-se de uma área de um rio para outra ou entre seus afluentes em resposta aos fatores sazonais de temperatura e disponibilidade de alimentos.
Borboletas: O mais famoso exemplo de migração que ocorre entre insetos é o da borboleta-monarca. Elas se envolvem em uma das maiores migrações que ocorrem entre insetos e percorre até 4.800 km a partir das suas terras de reprodução na América do Norte até as terras altas do México, onde passam o inverno. A migração dessas borboletas é tão longa que um único indivíduo da espécie não pode alcançar o destino sozinho; é uma migração multi-geracional, com todas as gerações continuando a migração até o destino.
Vespas: A vespa europeia (vespula germanica) é um inseto que pode percorrer longas distâncias durante o outono em busca de terras em que possa estabelecer novas colônias. Eles são muito ativos na busca de alimentos e territórios para construir seus ninhos e migram para regiões com clima ameno e comida mais abundante.
Gafanhotos: Gafanhotos são notórios por suas migrações em massa que, às vezes, podem ser extremamente devastadoras. Em um surto de pragas, grandes enxames de gafanhotos podem voar mais de 100 milhas em busca de novas áreas de pastagem. Esses enxames, compostos por até milhões de gafanhotos, têm a capacidade de devorar toda a colheita das terras dos agricultores, resultando em enormes perdas no setor agrícola. A praga dos gafanhotos tem sido historicamente controlada pelas condições climáticas, como a seca ou a escassez de alimentos, que forçam os insetos a migrar para terras.












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