SECA: UM DILEMA GLOBAL

Em 2024, a seca atingiu diversos municípios na Amazônia, afetando comunidades ribeirinhas - Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

COP17, na Mongólia, vai debater os efeitos do fenômeno em todos os continentes

Edição AgroDF
16 agosto 2026

Nos últimos 26 anos, a frequência e a duração da seca em várias regiões do planeta aumentaram em 30%, segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD). Esse fenômeno climático será um dos temas centrais da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que acontecerá em Ulaanbaatar, na Mongólia, entre 17 e 28 de agosto.

Até 2050, instituições científicas projetam que três em cada quatro pessoas no mundo poderão ser afetadas, enquanto a demanda global por água deve superar a oferta em até 40% até 2030. “A questão já não é reconhecer a seca como um risco global, mas agir cedo o suficiente para evitar que seus impactos se espalhem pelas comunidades, economias e fronteiras”, alerta Yasmine Fouad, secretária executiva da UNCCD.

No Brasil, em julho de 2026, todas as cinco regiões tiveram registros de seca, com diferentes intensidades. Pelo menos 157 dos 5.569 municípios brasileiros foram classificados em situação de “seca severa”, ou seja, registraram queda acentuada de umidade no solo e estresse hídrico na vegetação, com perdas na produção agrícola.

A estiagem no Brasil é acompanhada pelo Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), e por boletins mensais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Para o coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden, José Antônio Marengo, a seca deve se intensificar nos próximos meses. “O que observamos em todo o país é uma tendência de ressecamento”, afirma Marengo. “Vemos a diminuição dos totais de chuvas e o aumento da temperatura. Há um risco de que o desequilíbrio entre precipitação e evaporação leve a situações de agravamento das secas.”

Impacto no Brasil

Dados do Cemaden, que monitora o fenômeno no Brasil, apontam que nos últimos 30 anos as cinco macrorregiões brasileiras enfrentaram períodos severos de estiagem.  O impacto foi maior no Nordeste e no Norte de Minas Gerais. “Entre 2012 e 2017, tivemos uma seca muito impactante no semiárido do ponto de vista das reservas hídricas e da alimentação para os animais”, lembra Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

Nem a Amazônia, que tem a maior floresta tropical e a maior bacia hidrográfica do planeta, escapa do fenômeno. Pires relata que em 2023 e 2024, em diversos municípios da região, rios atingiram os menores níveis já registrados. Comunidades ficaram isoladas, transporte fluvial foi interrompido, houve dificuldades com o abastecimento de alimentos e de medicamentos.

Pires ressalta que a seca costuma atingir com maior intensidade populações que dependem diretamente dos recursos naturais para sobreviver, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares.

No final de 2025, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) lançou um boletim alertando sobre os efeitos da seca em comunidades tradicionais da região. “A crise climática se manifesta no cotidiano das comunidades”, destacou Toya Manchineri, coordenador-geral da Coiab.

“Quando o rio seca, o peixe desaparece, o barco não chega e a floresta, antes úmida, passa a queimar”, salienta Manchineri. “O que vivenciamos não foi uma estiagem isolada, mas um colapso ambiental em curso.”

No monitoramento recente feito pelo Cemaden, entre junho e julho de 2026 os territórios indígenas afetados pela seca severa aumentaram de três para 17. O fenômeno foi mais rigoroso nos distritos sanitários especiais indígenas de Alto Rio Negro (AM), Parintins (AM), Kaiapó do Pará (PA), Tocantins (TO) e Araguaia (MT e TO).

Em relação aos assentamentos rurais, houve aumento de duas para 44 áreas afetadas pela seca extrema, e crescimento de 102 para 309 áreas afetadas pela seca severa. Pará, Tocantins, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas concentram a maior parte das áreas afetadas.

Seca-relâmpago

Além de mudanças na frequência e na intensidade, as secas passaram a apresentar diferenças expressivas também na duração. Impulsionadas pelo aquecimento global, essas estiagens severas estão mais longas, segundo o pesquisador Humberto Alves Barbosa, coordenador e fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Barbosa destaca também os impactos identificados mais recentemente de um tipo de seca de curta duração, conhecido como seca-relâmpago. “Essas secas costumam ocorrer durante o verão, acompanhadas de aumento do calor, com início rápido e forte intensidade”, explica o pesquisador.

“O fenômeno dura apenas alguns dias ou semanas”, enfatiza Barbosa. “Porém, o efeito combinado da redução da cobertura vegetal e do aumento das temperaturas durante as secas piora ainda mais a condição de aridez da região.”

A seca no planeta

O fenômeno no planeta é monitorado pelo Observatório Global da Seca. Em julho de 2026, segundo a instituição, a Europa registrou temperaturas acima da média, com uma onda de calor prolongada. Mas esse continente não foi o único a sofrer com a seca, que se apresentou mais intensa nas seguintes regiões:

  • Europa: Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Hungria e Romênia;
  • África: Sul e Centro do continente, como Sudão, Etiópia, Zâmbia e Magadascar;
  • Oriente Médio: Irã e Omã;
  • Ásia: Centro e Sudeste, como Cazaquistão, China e Filipinas.

Efeitos do El Niño

As preocupações aumentaram com chegada do El Niño, que este ano se apresenta mais rigoroso. Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o fenômeno costuma alterar a circulação atmosférica em diferentes partes do planeta e modificar a distribuição das chuvas.

A Organização Meteorológica Mundial prevê que o El Niño deve ficar mais forte entre agosto e outubro de 2026. O padrão esperado de chuvas indica condições mais secas que o normal principalmente na Índia e partes do sul da Ásia, na Austrália Meridional e Oriental, na América Central e Caribe, no Noroeste da América do Sul e no Norte da Europa.

No Brasil, o fenômeno pode provocar secas mais severas em algumas regiões, alerta o pesquisador Humberto Barbosa. “Historicamente, um El Niño de intensidade muito forte está associado à redução das chuvas e ao aumento das temperaturas no Norte, Nordeste e áreas do Centro-Oeste”, alerta Barbosa. “O fenômeno deve afetar tanto a umidade do solo quanto a vazão dos rios. Estas regiões ficam mais vulneráveis às secas prolongadas ou às secas relâmpagos e às queimadas.”

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) estima que a seca e os demais impactos climáticos associados ao El Niño podem agravar significativamente a insegurança alimentar em 45 países. O PMA prevê que a população em situação de insegurança alimentar deve aumentar de 225 milhões para 275 milhões de pessoas, atingindo, principalmente, habitantes da América do Sul, da América Central, no Sul da África e no Caribe.

Seca na COP17

O tema será um dos mais importantes focos da COP17. Os debates ocorrerão nas reuniões da Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA, na sigla em inglês), da qual o Brasil passou a fazer parte em 2024.

Criada durante a COP27 do Clima, em 2022, a IDRA reúne governos e organizações internacionais. A Aliança busca fortalecer a cooperação entre os países, ampliar o compartilhamento de informações e incentivar investimentos em ações de adaptação.

“A expectativa é que essa articulação influencie as negociações e estimule os países a investir mais recursos para enfrentar as secas, porque esse é um problema que precisa ser tratado antes de virar uma emergência ainda maior”, defende Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (DCDE), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente.

Tipos de secas

O fenômeno climático pode assumir diferentes formas. Confira:

  • Seca Agrícola: reduz a umidade disponível para as plantas e compromete lavouras e pastagens.
  • Seca Hidrológica: afeta rios, reservatórios e aquíferos, e provoca impactos sobre o abastecimento humano, a geração de energia, a navegação e a biodiversidade.
  • Seca Meteorológica: ocorre quando as precipitações permanecem abaixo da média durante um período prolongado.
Com informações da Agência Brasil
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